Entrevista à Folha de São Paulo online

A psicologia do yoga e a ressaca da polarização eleitoral
 
Patrícia Britto: Acabamos de passar por uma das eleições mais polarizadas no país desde a redemocratização e temos visto uma forte divisão da sociedade, com muitas pessoas expressando medo, tristeza e desânimo. Como podemos entender esse momento do ponto de vista do ioga?
Jorge Luís Knak: Fico feliz de tratar desse tema, pois é justamente no confronto de ideias que se dá o caminho de ioga. O que quero dizer por confronto? O embate que coloca de um lado minhas expectativas, meus ideais, meu desejos, ou seja, meu mundo interno, e de outro lado a realidade externa. É fácil entender que esse embate não tem fim, pois jamais a minha realidade individual estará plenamente alinhada com a realidade plural. Na Índia é dito que “cada mente cria sua própria filosofia”, pois essa é a trajetória humana, encontrar-se através da diferenciação. Porém, essa trajetória traz seus desafios.
Patrícia Britto: Que tipo de desafios?

Jorge Luís Knak: O ioga diz que nosso ego tem, entre suas vulnerabilidades, o orgulho e a necessidade de se afirmar no ambiente que o cerca. Para nutrir essas vulnerabilidades, faz negociações arriscadas. A segunda [necessidade de afirmação] pode gerar uma certa proteção quando o ambiente está saudável, mas irá gerar grandes danos quando o ambiente está doente. Como somos humanos, não ficaremos imunes a tais armadilhas. O ser humano nasce da ignorância, da confusão a respeito de sua verdadeira identidade, e o medo e o sofrimento são as inevitáveis consequências dessa incerteza. Tateamos no escuro em busca de algo em que possamos nos agarrar. Mas aceitar nossa ignorância e nosso medo é a primeira etapa da cura, assumir que estamos em busca e que todos nós estamos na mesma condição interna é essencial para o sentimento de irmandade.

Patrícia Britto: Ou seja, é preciso entender que, por mais que eu discorde do outro, ele é movido por uma lógica interna que pode estar além da minha compreensão…
Jorge Luís Knak: No ioga, o sentimento de irmandade é tanto a base de uma sociedade madura quanto a base para o autoconhecimento. O desejo da experiência de irmandade é natural em todos nós e é intenso, eis a razão de nossa angústia e violência quando o mesmo não se estabelece. Sabemos que a intensidade da reação equivale à intensidade do desejo. Mas, se não somos educados para essa percepção, somos enganados pela emoção mais aparente. E, como nosso sistema educacional é um fracasso nessa área, padecemos desse mal. Desejamos comunhão e não temos nem sequer consciência e clareza disso. Essa comunhão é um dos principais temas tratados em atendimentos terapêuticos na psicologia do ioga. A maneira como essa comunhão se apresenta em forma de ações está conectada ao conceito de “dharma”, que pode ser entendido como “ação saudável para aquele que a realiza e para o ambiente que a recebe”. É a dimensão social do sistema de ioga.
By |2019-06-18T16:01:32-03:0020 de novembro de 2018|Categories: Artigos|Tags: , , |0 Comentários

Sobre o Autor:

Jorge Knak
Professor de Yoga, Funcionário Público, pai de três filhos. Dedica-se ao Yoga na tradição de Krishnamacharya. Estudou na Índia com os Profs.TKV Desikachar, Kausthub Desikachar, S. Sridharan, Dr. Chandrasekaram e outros. Desde 2013 estuda com o Prof. Paul Harvey (Inglaterra), aluno direto de TKV desde 1976 e criador do "Centre for Yoga Studies" em Bristol.

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