Para onde eu vou? Venha também… Visões da psicologia do yoga

Psicologias

Um dos alicerces da Psicologia do Yoga é a estrutura de percepção do ser humano. Na grande maioria das Psicologias modernas a mente é vista como sendo a única responsável pela observação do mundo. O yoga não nega a realidade da mente, mas estabelece uma composição mais complexa.

Entendendo o modelo de percepção do Yoga

A mente, em conjunto com os sentidos, é vista como um instrumento intermediário na relação com os objetos. Há algo mais amplo que a mente, algo que a autoriza, que dá suporte à sua função. Esse algo é chamado de “draṣṭṛ”, palavra que indica “aquele que vê”, e deve ser entendido como a mera presença de inteligência, de vida. Já a mente é o instrumento que direciona essa inteligência para uma função específica, que é o relacionamento com os objetos dos sentidos.

Para que possamos entender de forma mais prática o papel de um intermediário podemos nos utilizar da compreensão que temos a respeito dos sentidos. Do ponto de vista da mente e dos objetos, os sentidos possuem a tarefa de intermediar a percepção. O sentidos não são a autoridade máxima, há uma outra realidade que dá sentido à sua função. Essa realidade é a mente. Cabe ao sentido “sentir” o odor, a temperatura ou o gosto de um objeto e passar essa informação à mente. Assim, a mente poderá realizar sua função, que é interpretar essa informação. A mente sem os sentidos seria impedida de exercer seu papel, estaria presa em sua incapacidade de descobrir as qualidades dos objetos do mundo. Como podem os objetos serem interpretados sem que sejam vistos ou escutados, sem terem cheiro, temperatura ou gosto? O que restaria à mente encarcerada? Algumas atividades mentais sobreviveriam, mas não aquelas relativas ao reconhecimento de objetos externos. Pois da mesma forma que podemos entender esse importante papel intermediário dos sentidos, poderemos entender que a mente também é considerada uma intermediária sob o ponto de vista do Yoga. Ela é responsável por registrar e analisar a informação recebida dos sentidos, mas ela precisa dessa inteligência básica para cumprir com sua tarefa.

E qual a importância de sabermos disso?

Assim como podemos experienciar a ação dos sentidos, também podemos experienciar a ação da mente. E assim como podemos, com um certo treinamento, experienciar a mente ainda presente quando os sentidos já se calaram, também poderemos experienciar a presença de algo mais profundo (a mera presença de vida) quando a mente se calar.

Quanto mais pudermos ter acesso a uma experiência mais interna e mais profunda, mais relativizaremos cada um dos níveis de nossa existência. Por exemplo, uma pessoa que acredita que o olfato é a única fonte de satisfação do ser humano agirá compulsivamente na busca de odores refinados. Já uma pessoa que reconhece que há cinco diferentes formas de desfrute no mundo dos objetos se sentirá mais rica e não se limitará à busca de satisfação apenas através do olfato. Da mesma forma, aquele que reconhece que há outros níveis de experiência não se restringirá ao desfrute de um único nível e, também, terá condições de questionar e comparar os frutos de cada um dos níveis de experiência.

O estudo dessa estrutura não é tudo, também precisamos treinar a nossa percepção profunda. Por mais que nossa educação escolar tenha sido completamente falha e medíocre nesse sentido, existe sim um conhecimento que trata desse treinamento. Esse conhecimento se chama Yoga Darśana. Infelizmente, nem tudo o que na atualidade é chamado de Yoga trata, de fato, do treinamento dessa visão.

Nutrindo

Cada uma de nossas camadas nutre diferentes aspectos. O prazer dos sentidos nos traz uma determinada satisfação, uma alimentação saudável e nutritiva pode nos trazer uma outra satisfação mais sutil e refinada, já encontrar a solução para uma problema pode trazer grande alívio e alegria, o relaxamento pode nos levar “ao céu”, amar e ser amado pode também alimentar nosso coração de forma que deixemos todas as outras necessidades de lado. Há vários níveis de desfrute, de nutrição, várias formas de “alimento”.

E, da mesma forma, cada camada pode trazer perturbação, desequilíbrio. Quando percebemos a nós mesmos de forma integral, quando reconhecemos que não somos apenas corpo, ou apenas sentidos, ou apenas mente, descobrimos que o cuidado com cada um desses níveis é uma etapa importante para nossa realização pessoal como um todo. Não basta apenas satisfazermos o corpo, nem será suficiente satisfazer apenas os sentidos ou a mente. Precisamos abrir os olhos mais e mais. Precisamos transitar em todas essas esferas da experiência humana de forma a não gerar perturbações que impeçam a descoberta da camada que a antecede. Um corpo doente impede o bom funcionamento dos sentidos, os sentidos perturbados não fornecem informações corretas à mente, uma mente agitada ou entorpecida impede a experiência da satisfação mais profunda acessível ao ser humano, impede a experiência da vida plena em si mesma, seja na presença de suas funções específicas, seja na ausência das mesmas.

Ou eu ou não

Há outra alternativa? Sim. A outra alternativa é não viver a mim mesmo. Ou caminho em direção a mim mesmo, encontrando aquilo que é o coração da minha própria existência, ou me entrego à falsa carcaça que tomei emprestada de tudo o que não é eu.

By |2019-06-07T11:08:08-03:0012 de maio de 2013|Categories: Artigos|0 Comentários

Sobre o Autor:

Jorge Knak
Professor de Yoga, Funcionário Público, pai de três filhos. Dedica-se ao Yoga na tradição de Krishnamacharya. Estudou na Índia com os Profs.TKV Desikachar, Kausthub Desikachar, S. Sridharan, Dr. Chandrasekaram e outros. Desde 2013 estuda com o Prof. Paul Harvey (Inglaterra), aluno direto de TKV desde 1976 e criador do "Centre for Yoga Studies" em Bristol.

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